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Covid-19: do Animal para o Homem, da China para o Mundo

“Segundo os cientistas cerca de 70% das doenças infeciosas emergentes nos seres humanos são de origem animal.”

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Opinião Notícias de Leiria
Foto: Notícias de Leiria

Se aconteceu uma vez pode acontecer outra vez! Esta é a conclusão a tirar das declarações de vários especialistas internacionais em zoonoses (doenças transmitidas por animais a pessoas através de vírus, bactérias, parasitas ou fungos) sobre a pandemia de Covid-19.

Certos animais selvagens, devido à resistência e adaptação imunológica do seu organismo, alojam determinados vírus que transmitidos ao Homem podem ser mortais e altamente contagiosos.

Segundo os cientistas cerca de 70% das doenças infeciosas emergentes nos seres humanos são de origem animal e podem existir cerca de 1,7 milhões de vírus por descobrir na vida selvagem.

No estado atual da investigação científica, sem ainda haver certezas, tudo leva a crer que o SARS-CoV-2 seja um desses vírus. Já no passado ocorreram epidemias com origem em animais: ébola, síndrome respiratória aguda (SARS em inglês) em 2002/03, síndrome respiratória aguda do Médio Oriente (MERS em inglês) em 2012, entre outras.

O comércio mundial de animais selvagens, a destruição dos habitats naturais, a expansão urbana desmensurada são fatores que crescentemente aproximam pessoas de animais selvagens em determinadas zonas do planeta. Se a isto juntarmos que, sobretudo na Ásia e África, a venda de animais selvagens é uma realidade socialmente aceite por motivos culturais (gastronomia, medicina, crenças populares) e por motivos económicos (fonte de rendimento para famílias pobres) os vírus zoonóticos têm cada vez mais oportunidades de saírem do seu hospedeiro natural e passarem ao Homem, encontrando neste um organismo imunologicamente indefeso.

Vivendo a Humanidade numa economia mundial o que antes era apenas um surto regional pode hoje, num ápice, tornar-se numa pandemia global, realidade com a qual vivemos atualmente.

Uma das principais formas de transmissão do vírus ao humano é através da ingestão da carne.

Não é por acaso, que tanto Elizabeth Maruma Mrema (secretária-executiva da Convenção das Nações Unidas para a Diversidade Biológica) como a prestigiada World Wide Fund for Nature (WWF) tenham recomendado o encerramento dos mercados de venda de animais selvagens para consumo humano. A estas vozes juntaram-se a de muitos outros cientistas que apelaram ao Governo chinês para que transforme a proibição temporária de venda de animais selvagens em proibição permanente. As fortes suspeitas de que o novo coronavírus tenha tido a sua origem em animais selvagens do mercado da cidade de Whuan levaram as autoridades chinesas, ainda que temporariamente, a proibir a venda de animais selvagens nos mercados.

Do ponto de vista científico, é pois possível estabelecer um elo causal entre o comportamento da Humanidade para com a Natureza e o aparecimento de epidemias zoonóticas. Doenças, contágios, comércio de animais, destruição de ecossistemas, hábitos culturais, pobreza são faces de uma mesma realidade complexa cada vez mais presente nas nossas vidas coletivas. Ao tratarmos estas componentes autonomamente, desligando-as umas das outras, não estamos a ver o problema na sua máxima extensão e como um todo interdependente. Há certamente uma dimensão ecológica e ética na atual pandemia: os animais devem ser vistos como parceiros com quem partilhamos a mesma Casa Comum, não uma refeição ou um petisco.

Os seus habitats devem ser preservados e recuperados, não arrasados!

Sendo possível o aparecimento de novas epidemias zoonóticas que facilmente afetam as pessoas em todo o mundo com consequências agora conhecidas, é justo e necessário haver da parte da comunidade internacional, a começar pela Organização Mundial de Saúde, pressão política dirigida aos governos dos países com hábitos de consumo de animais selvagens no sentido de proibirem a sua caça, criação e comércio. Esta pressão só poderá ser vista como uma medida de saúde pública mundial. Paralelamente, visto que este tipo de comércio está muito associado a comunidades rurais mais empobrecidas deviam esses países, eventualmente com ajuda internacional, desenvolver programas de sensibilização e de apoio às comunidades rurais para que estas tenham atividades económicas alternativas ao comércio de animais.

 

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O Notícias de Leiria convidou todos os partidos representados na Assembleia da República para a publicação de um artigo de opinião, da inteira responsabilidade do seu autor.

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