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De Lisboa, ao telefone, o carismático cantor e compositor, Fernando Tordo, de 73 anos de idade, e 57 de carreira, antecipou ao Notícias de Leiria, na manhã deste sábado, o que vai ser o concerto com as bandas filarmónicas da região de Leiria, agendado para 15 de janeiro, no Teatro José Lúcio da Silva (TJLS), e falou sobre o seu percurso artístico.  


Notícias de Leiria: Como é que surgiu a ideia de vir a Leiria tocar com as bandas filarmónicas da região?  

Fernando Tordo: Por vezes faço concertos com filarmónicas espalhadas pelo país. A mudança fundamental de há anos a esta parte, do que acontece com os músicos e a música em Portugal, levam a que tenhamos hoje surpreendentemente variadíssimas bandas sinfónicas e filarmónicas espalhadas pelo país.

Seria bom para quem tem o meu tipo de música e de carreira e até de gravação de discos. Temos que aproveitar. Se as orquestras existem vamos utilizá-las, entreter e dizer às pessoas, como no caso de Leiria, que uma orquestra pode perfeitamente acompanhar o artista.

Sou um cantor e também um compositor, e é bom ver a amplitude e variedade que as orquestras locais têm. A ideia surgiu assim, são as minhas canções muito conhecidas interpretadas pelas orquestras locais. Para mim é sempre uma sensação muito boa e os resultados muito positivos. No palco, somos todos iguais.  


Notícias de Leiria: Já conhece o Teatro José Lúcio da Silva?  

Fernando Tordo: O Lúcio da Silva é conhecido há muitos anos. Eu lembro-me do Teatro José Lúcio da Silva há pelo menos 50 anos. Já lá atuei e volto com muito gosto.

Fico muito feliz que os municípios queiram mostrar o melhor aos seus munícipes, porque essa é também a sua obrigação e dever cívico, criar entusiasmo e criar escola.  


Notícias de Leiria: O que espera do espetáculo “Um Tordo na Filarmónica”, agendado para o dia 15?  

Fernando Tordo: Espero que os leirienses venham, porque a grande necessidade que o artista tem é de público. Não se trata de mais nada que não seja isso. Que a comunicação social faça uma campanha grande, porque vocês são altamente responsáveis pelo êxito destas coisas.

O espetáculo é muito divertido, e vou também explicar como fiz algumas canções, por exemplo, com o Ary dos Santos e dar-lhe uma toada muito intimista e esclarecedora. 


Notícias de Leiria: Conhece a cidade de Leiria? Como é Leiria para si?  

Fernando Tordo: Conheço muito mal a cidade de Leiria. Tenho uma lembrança muito especial. Em 1973, quando ganhei o festival da canção com a “Tourada”, havia um júri regional, e após uma vitória renhida, quem acaba por resolver é o júri de Leiria.

Nunca mais me posso esquecer, porque foi uma surpresa muito grande. Estava à espera de tudo menos de ganhar o festival. Não posso esquecer mais Leiria, passados 48 anos.  


Notícias de Leiria: Faz 57 anos de carreira em 2022.  

Fernando Tordo: Eu conto os anos de carreira a partir da primeira vez que fui pago, e isso foi com o meu primeiro grupo, os Deltons, uma banda pop e de baile em Lisboa, numa festa de finalistas. Em termos profissionais é assim que conto o meu tempo de carreira, que começou há 57 anos. 


Notícias de Leiria: Quer recordar um momento alto da carreira?  

Fernando Tordo: Tenho vários momentos, não posso desligar uns dos outros. Não tenho um único momento alto.

A vitória no festival da canção, em 1973, teve um forte significado, não só para mim, mas também para o nosso país que vivia uma situação muito pesada, com a guerra colonial e muitas mortes em África. E ter conseguido cantar aquela canção para sete milhões de portugueses… na altura só havia um canal de televisão! A informação era muito curta e o festival da canção atraia um país inteiro. É um momento muito importante, na minha carreira.

Também já gravei dois cd`s no mais célebre estúdio de mundo, o Abbey Road, em Londres.  


Notícias de Leiria: Em 2014 foi para o Brasil porque “não se podia respirar em Portugal”. Terá sido esse o momento menos bom?  

Fernando Tordo: Eu esclareci isso. Faço parte de uma geração que modesta e humildemente fez tudo o que podia através da sua profissão, a música e das canções, para que alguma coisa mudasse no nosso país, e de repente dou por mim, décadas passadas do 25 de abril, e vejo um país entregue a pessoas que não têm capacidade para governar e desviam o país de um curso que quisemos triar e construir. O meu desagrado manifestei-o assim.

Se tivéssemos a infelicidade de alguma coisa semelhante acontecer, a mala está sempre aqui ao lado. Ainda há pouco tempo cumprimentei o ex-primeiro ministro Pedro Passos Coelho. Ele sabe o que penso dele.  


Notícias de Leiria: Tem quantos discos gravados? Qual o disco ou tema que mais marcou a sua carreira?  

Fernando Tordo: Tenho um fã, um homem interessantíssimo, que se intitula o fã número um do Fernando Tordo e já me disse que vai estar em Leiria.

O homem diz que já tirou o bilhete, tem 65 discos meus em casa. Dos chamados formatos grandes, ou LP`s, tenho 37 ou 38 gravados, com o que vai sair agora, chamado “Os Fados Que Eu Fiz,” e depois há os mais pequenos, que também são muitos.

Há um disco importante e muito considerado pela critica que se chama “Adeus Tristeza.” Centenas de pessoas neste Natal vieram-me perguntar quando é reeditado “Os operários de Natal,” gravado há quase cinquenta anos. Eu já musiquei doze prémios nobel da literatura.  


Notícias de Leiria: É um dos pioneiros da música de intervenção? A sua música é de intervenção? 

Fernando Tordo: A “Estrela da Tarde” não é uma canção de intervenção, nem o “Cavalo à Solta”, nem a “Balada para os Nossos Filhos” nem o “Adeus Tristeza.”

As pessoas puseram essa etiqueta porque num determinado período eu andei pelo país, Leiria incluída, cantando em sessões de cariz político.

As canções que vou cantar em Leiria, muitas delas são do período revolucionário ou de intervenção. Canções de intervenção são o quê? Isso tem a haver com as letras, que relataram momentos particulares do nosso país.  


Notícias de Leiria: Quem ouve a sua música?  

Fernando Tordo: Surpreendentemente, com o passar dos anos vai aparecendo cada vez mais gente jovem nos espetáculos. Jovens de 18, 19 anos, e às vezes até menos.

A “Tourada” não passa na rádio, e já naquele tempo não passou. São canções que ficaram no ouvido, como também o “Adeus Tristeza.” Fazem parte do acervo nacional, vão ser apresentadas em Leiria e espero que o público goste.  


Notícias de Leiria: Quais são, ou foram, as suas influências musicais?  

Fernando Tordo: Quando era miúdo e me iniciei na música, a que mais me influenciava era a música inglesa. O Cliff Richard e os Shadows, porque aprendemos a tocar guitarra com eles.

Os Shadows serviram para a gente ter o gosto pelos instrumentos. Foram os mestres de uma geração em Portugal. Gosto da música de orquestra dos Estados Unidos e França.  


Notícias de Leiria: Como vê hoje Portugal no panorama cultural?  

Fernando Tordo: Agora é uma boa altura para ler os programas dos partidos e o que eles dizem sobre a cultura. Para muitos partidos, a cultura continua a ser os museus, a recuperação e o restauro. É uma coisa completamente absurda, porque se criou a ideia que a malta da música é toda rica.

Ando, com 73 anos, a cantar por amor, e não por paixão. Quem não for autor ou compositor tem dificuldade em viver dos espetáculos que faz. A cultura tinha que ser muito mais apoiada e haver muito mais espetáculos.

A linguagem dos partidos sobre cultura é abstrusa e pouco concreta, porque a ideia que há é que os artistas são todos ricos. Até há pouco tempo um artista ganhava num espetáculo, aquilo que um músico não ganhava em cinco anos.  


Notícias de Leiria: O que fez durante o confinamento?  

Fernando Tordo: Consegui gravar um disco, porque a tecnologia hoje em dia dá para quase tudo. O disco “Os Fados que Eu Fiz” tem músicos a tocar que não conheço pessoalmente. 

Quando tive internado com covid-19, em estado muito grave, escrevi um guião para um concerto que se vai chamar “O Sweet das Mulheres de Azul,” que é sobre a minha experiência no hospital durante 28 dias, a ver aos profissionais que salvaram milhares de vidas por dedicação e por amor, e merecem agora que alguém se preocupe com isso, no plano musical.  


Notícias de Leiria: O que deseja e o que espera para o ano de 2022?  

Fernando Tordo: Espero que a pandemia e tudo aquilo que fez atrasar, parar e arrasar, acabe.

Fico muito surpreendido e satisfeito com esta questão das vacinas. Quanto mais vacinas melhor, e olhe que eu estive muito doente com covid, e o que tenho a dizer é que aceitem todas as vacinas que vierem e não armem mais confusões, que é a única maneira de nós sairmos disto e estarmos prevenidos. Isto sente-se mais quando estamos às portas da morte, e os cerca de 19 mil que já morreram, infelizmente já cá não estão.  


Notícias de Leiria: Do alto dos seus 73 anos e 57 de carreira, quais são os planos para futuro?  

Fernando Tordo: A única coisa que não vale é fazer batota. Quando sentir que já não quero, não posso ou estou desinteressado, termino. Enquanto estiver no ativo, os projetos são o dia a dia, até que a saúde, a capacidade mental e física aguentem.

Neste momento sinto-me perfeitamente bem para continuar a trabalhar. Os projetos é continuar a compor, a gravar e estar com o público. É importante estarmos bem connosco e com os outros.  

O espetáculo “Um Tordo na Filarmónica”, com Fernando Tordo, realiza-se no dia 15 de janeiro, às 21h30. Faz parte do concerto comemorativo do 56º aniversário do Teatro José Lúcio da Silva, em Leiria.

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