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Pedrógão Grande: Alzira ainda está à espera da sua casa, quatro anos depois

“Não consegui recuperar nada”, conta à agência Lusa Alzira Luiz, hoje a morar em Moredos, às portas da vila de Castanheira de Pera, numa habitação arrendada. 

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Pedrógão Grande Incêndio
Foto: Incêndio em Pedrógão Grande, em 2017 / DR

Alzira Luiz perdeu a habitação, na aldeia de Rapos, concelho de Castanheira de Pera, no incêndio de 17 de junho de 2017. Quatro anos depois, ainda espera pelo regresso a casa.

Alzira, de 77 anos, estava sozinha em casa quando o fogo chegou, como esperava que chegasse, e, assim que percebeu que seria uma luta impossível de travar, fugiu a pé apenas com “uma malinha com os documentos”, e, já longe, viu a habitação, onde morava há mais de 40 anos, arder.

“Não consegui recuperar nada”, conta à agência Lusa Alzira Luiz, hoje a morar em Moredos, às portas da vila de Castanheira de Pera, numa habitação arrendada.

A Segurança Social pagou-lhe a renda de 150 euros mensais até dezembro de 2020 e, a partir daí, nunca mais houve apoio, tendo assistido “a espetáculos dos senhorios” a exigirem-lhe o pagamento.

“Chegaram a dizer-me para sair daqui para fora”, recorda. Falou com a Câmara de Castanheira de Pera e os senhorios acabaram por nunca mais a chatear.

A adaptação à nova casa também não foi fácil: “O nosso cantinho é o nosso cantinho. Pode parecer para as outras pessoas que não é bom, mas para nós é o melhor”, diz, salientando que por ali o seu cão, de nome Max, tem de estar preso e também ela se sente algo presa, sem a sua casa e sem a sua horta, que era um entretém.

“Custa mais a passar o tempo”, acrescenta.

Em Rapos, está apenas o trabalho de alvenaria feito (paredes e cobertura), pago pelo fundo Revita, faltando tudo o resto (acabamentos, instalação elétrica e canalização, chão, cozinha).

Dentro da casa, um ninho de andorinhas é marca do abandono.

Os quatro anos de espera não são fáceis de contar, nem de explicar. E mudando de interveniente, a história também ela muda. “É um processo extremamente complicado de gerir”, resume a presidente da Câmara de Castanheira de Pêra, Alda Carvalho.

Tudo começou com a atribuição da casa a um grupo de voluntários de Pombal intitulado ReConstruir Pinhal Interior Norte, liderado por Joel Silva, que se prontificou a reabilitá-la, ainda antes de ser certo como as casas destruídas seriam apoiadas.

A estrutura, conta Alzira Luiz, foi paga pelo Revita e o resto seria feito pelos voluntários.

A intervenção de alvenaria até demorou pouco tempo a ficar de pé, apontando para 2018 como o ano em que ficou concluída, mas sem dar certezas.

Segundo Alzira, depois é que veio o impasse: “Eles andavam a fazer outra casa na Figueira [concelho de Pedrógão Grande e que terminaram em dezembro de 2019] e disseram que iam acabar aquela e que depois vinham à nossa fazer tudo o resto. E nós confiámos. Mas o voluntariado desapareceu com as polémicas das casas”, recorda.

Tentou telefonar-lhes, perceber quando fariam a sua casa, mas só no final de 2019 é que soube que o grupo de voluntários ia abandonar o projeto.

Posteriormente, contratou um arquiteto, teve que esperar pela autorização do anterior para a reformulação do projeto e espera agora que os papéis deem entrada na Câmara em breve.

Isto tudo porque a estrutura e o projeto, tal como está, é mais pequeno do que a casa que tinha, realça.

“Os quartos são mais pequenos, tinha duas salas, agora só tenho uma e a casa de banho também é muito pequena”, frisa, salientando que o projeto agora irá estar mais ao encontro da sua vontade e necessidades.

Foi essa divergência sobre as dimensões e projeto da casa que terá estado no centro dos problemas entre Alzira e o grupo de voluntários.

Joel Silva, do grupo de voluntários, diz que a intervenção na casa de Rapos demorou inicialmente porque a família de Alzira teve que resolver um problema de partilhas, tendo adiado logo o processo para março de 2018, altura em que foi feita a demolição da casa ardida.

“A casa tinha uma área muito grande, mas não servia de nada para uma casa onde vivia só a dona Alzira e onde a neta passava lá algum tempo regularmente”, afirma.

Segundo o responsável do grupo, os desenhos propostos foram recusados três vezes por Alzira e ao quarto, quando havia a possibilidade de se avançar com o trabalho de alvenaria, a família aceitou, mas depois de ver a obra criticou-a.

“Queriam mais quartos, queriam mais área, queriam uma janela e eu cansei-me. Eu fazia 200 quilómetros, sábados perdidos, uma pilha de nervos e recusavam os desenhos porque queriam ter uma casa melhor”, refere.

Joel salienta ainda que o próprio grupo não teria condições para assegurar tudo o que Alzira pretendia, quer em termos de materiais, quer em termos de recursos humanos, especialmente após o verão de 2018, em que estalou a polémica da eventual fraude nas reconstruções, e o projeto passou de 20 para três voluntários por sábado e perdeu doações de material.

Questionado pela Lusa sobre se Alzira não tinha o direito de ter uma casa próxima àquela que tinha antes de arder, Joel Silva respondeu que nunca percebeu tanta intransigência para alguém que “ia receber uma casa de borla”.

Segundo o líder do grupo de voluntários, foi ainda em meados de 2019 que se desvinculou do projeto, comunicando essa intenção ao fundo Revita e à autarquia.

“Tenho muita pena de não entregar a chave à dona Alzira e tenho muita pena de não ver lá o Max, mas cansei-me”, desabafou.

Para a presidente da Câmara, Alda Carvalho, o processo não foi conduzido da melhor forma. A autarca refere que a associação teve dificuldade em dar resposta ao projeto quando se deparou com falta de voluntários e materiais.

“Andámos em 2020 a tentar que a associação assumisse a obra, mas depois chegámos à conclusão que não daria e agora estamos a tentar resolver problemas inerentes”, aclarou.

A autarquia espera agora que a família de Alzira apresente o novo projeto de arquitetura para depois ser feito um pedido de apoio junto do Revita para garantir o fim da obra.

“Eu sou a primeira que queria que este projeto estivesse concluído. Nós queremos a dona Alzira realojada na sua casa”, referiu.

Questionada sobre se o processo tivesse sido assumido logo desde início pelo Revita em que ponto estaria a casa, Alda Carvalho não tem dúvidas: “Já estava concluída”.

Numa resposta por e-mail, a Segurança Social (SS) afirmou que das 99 casas que o Fundo Revita tem diretamente a seu cargo cinco estão suspensas por causa do processo judicial em curso e cinco em execução.

A SS prevê que as obras “ficarão concluídas durante este ano”.

Já sobre os apoios às rendas, a SS apenas referiu que está presente desde o início “no apoio à população afetada pelos incêndios”.

Por enquanto, Alzira não tem grande esperança que vá já passar este natal à sua casa. “Há quatro natais que oiço isso e cada natal passa e estamos assim. Estou cansada”, lamentou.

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