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População desconhece referência utilizada para prever a altura das marés

Em Óbidos, a NP 222 está localizada no Paço de São João Batista, junto à porta da vila.

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Chuva Água Pingos
Foto: Pixabay

As marcas de nivelamento usadas para medir altitudes a nível nacional, mas que em cidades e vilas portuárias também indicam o zero hidrográfico, uma referência utilizada para a previsão de altura das marés, são em geral desconhecidas da população.

A Rede Nacional de Nivelamento Geométrico de Alta Precisão, um sistema oficial criado a partir de 1938 que permite aferir a altitude em qualquer ponto do país, utiliza no total mais de 4.500 localizações estáticas, quase três centenas das quais são marcas de nivelamento principal.

Nas localidades portuárias, em pelo menos 14 dos 19 portos do continente e ilhas, as marcas de nivelamento principal (NP) – uma inscrição metálica quadrada, que não chega a ter 10 centímetros de lado, chumbada na pedra em igrejas, monumentos, estações de comboio ou autarquias – indicam, cumulativamente, o zero hidrográfico.

Este é um referencial usado para a previsão das marés e para a segurança da navegação marítima, através das profundidades indicadas nas cartas náuticas, e que em Portugal é definido “pelo nível da mais baixa das baixas-marés registadas num determinado período, normalmente 18,6 anos”, refere a Direção-Geral do Território na sua página de internet.

As marcas de nivelamento principal situam-se, na sua globalidade, em locais imutáveis ao longo do tempo. Em Óbidos, distrito de Leiria, a NP 222 está localizada no Paço de São João Batista, junto à porta da vila, confirma a arqueóloga do município, Dina Matias.

Ali, o zero hidrográfico situa-se, de acordo com informação do Instituto Hidrográfico (IH) da Marinha, 58,4 metros abaixo daquela marca, sendo referência para o porto de Peniche, localizado a 18 quilómetros (km) em linha reta.

Arlindo Nunes, taxista há 19 anos, na praça fronteira ao edifício, onde sempre viu a marca, associa-a a “qualquer coisa relacionada com o edifício, uma data talvez”.

Ou então “talvez queria dizer ‘nacional português'”, atira o taxista, quando informado de que a inscrição NP 222 não está relacionada com os passos que se cumprem nas procissões religiosas, sendo antes uma espécie de número de série (a primeira marca de nivelamento principal colocada em Cascais, na porta principal da Cidadela, em 1938, tem o número um).

No mesmo degrau, ao lado da marca, senta-se diariamente um grupo de reformados, a ver passar os visitantes e a conversar entre si, porque com os turistas “nem conversas nem fotos, que eles não gostam”, explica o taxista.

Com jornalistas “menos ainda”, adverte um deles, escusando revelar o nome de quem, “nascido e criado em Óbidos há 75 anos”, é “desde sempre” conhecedor da marca, cujo significado atribui “ao número de passos [das procissões] pelo país fora, que aqui em Óbidos são cinco”.

Mas, como “um homem está sempre a aprender”, se afinal “tem a ver com as marés também não é de estranhar”. Em tempos, “aquela várzea lá em baixo era tudo lagoa [de Óbidos] e ali na estação há umas argolas onde se prendiam os barcos”, esclarece.

“Isso sim, são marcas que se percebem, agora esta, uns sentam-se, outros pisam, ninguém liga”, remata.

Na Figueira da Foz, litoral do distrito de Coimbra, a marca NP 96 passa despercebida a quem circula na rua Fernandes Tomás, na baixa da cidade. Está localizada na fachada traseira da Câmara Municipal, quase ao nível do passeio, no vão de uma janela, e nem um livro editado em 2001 sobre o edifício dos Paços do Concelho (cuja construção foi concluída em finais do século XIX) lhe faz qualquer alusão.

O presidente do município, Carlos Monteiro, soube pela Lusa da existência, naquele local, da marca de nivelamento principal – que situa o zero hidrográfico 5,4 metros abaixo -, a exemplo do capitão do porto João Lourenço, que embora saiba o seu significado, dadas as suas funções, desconhecia onde se situava.

“Claro que é uma descoberta. Já tinha visto a placa, mas nem sequer tive a curiosidade de perceber – o que até parece mau – o que é que a placa indicava ou representava. No mínimo, vai despertar a curiosidade das pessoas”, admite Carlos Monteiro.

João Lourenço resume a função da marca NP 96, relativamente ao zero hidrográfico: “É um plano referencial segundo o qual se fazem todas as medidas marítimas e que varia de porto a porto”.

Também em Viana do Castelo, Lisboa e Vila Real de Santo António a marca é desconhecida à população, segundo a reportagem da Agência Lusa.

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