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Projeto “Sempre consigo” escuta e ajuda idosos isolados de Leiria

“É um apoio de proximidade, já que notamos que nas zonas urbanas as redes vizinhas são mais diluídas”, considera a vereadora Ana Valentim.

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Mulher idosa
Foto: Mãos de mulher idosa / Pixabay

Tristeza, solidão e necessidade de ‘dois dedos’ de conversa são características comuns aos idosos que recebem apoio do Município de Leiria, através do projeto “Sempre consigo”.

O veículo elétrico da Câmara de Leiria sai cedo para visitar os idosos sinalizados. A primeira paragem, na quinta-feira, foi na Barreira.

O senhor Joaquim está a dois passos da sua casa a conversar com um vizinho. Ao avistar a assistente social e o psicólogo municipais, coloca a máscara na cara e dá os bons dias.

“Já não vejo a minha mulher há 15 dias. Quando consigo ir visitá-la, ela já não me reconhece. Não me deixaram levar flores no dia do seu aniversário. Cantámos os parabéns pelo telefone”, conta, referindo-se à videochamada que conseguiu fazer com o seu neto, mas com a tristeza nos olhos por não poder ter ido aos cuidados continuados.

A mulher está internada há alguns meses e, de repente, viu-se sozinho na casa que os dois partilhavam há anos. Apesar da demência da esposa, preferia tê-la em casa. “Olhar para a cama vazia e estar sem ela é muito triste”, desabafa, com os olhos esverdeados a encherem-se de lágrimas.

Sónia Moreira, assistente social, e Bernardo Faustino, psicólogo, são uma das duas equipas que o Município disponibiliza para acompanhar os idosos isolados do concelho.

Procuram saber as principais necessidades e quais os problemas que a pandemia agravou. Joaquim, 82 anos, mostra as obras a que foi obrigado a fazer e cuja condição financeira não as permite acabar. “O meu neto ajudou-me e até foi ele que pintou isto”, refere, apontando para as paredes, lamentando ainda não conseguir terminar a cozinha e casa de banho.

“Vamos ver o que a Câmara pode fazer para ajudá-lo”, sossega Sónia Moreira, perguntando-lhe se já tratou do apoio municipal para ter comparticipação nos medicamentos.

O filho e o neto visitam-no quando podem, mas os dias de Joaquim são solitários, sobretudo desde que a mulher foi internada.

Ser escutado e perceber que se preocupam deixam-no mais calmo, sentimento que deixa transparecer durante a conversa, que se alonga muito para lá da meia hora, onde se fala um pouco de tudo.

“Coragem”, despede-se o psicólogo, cujas palavras deixam Joaquim emocionado.

Numas ruas mais à frente, a equipa procura a casa de outra idosa. Mercês, 73 anos, está a passear a sua cadela e mostra-se satisfeita por ver a equipa do Município.

Com um sorriso na cara e feliz por ter com quem conversar, alonga-se na conversa e vai contando as histórias que lhe foram deixando marcas ao longo da vida. O filho está noutro distrito e o neto ter-lhe-á levado o pouco que tinha. “Apresentei queixa à PSP e já cá estiveram”.

Mercês revela que, da magra reforma de 263 euros, paga 200 euros de renda. “Quando cozinho, faço comida para várias refeições para poupar o gás”, confessa, admitindo que até a roupa lava à mão.

Sónia Moreira avisa que vai ativar o Fundo de Emergência para poder ajudar a idosa durante alguns meses.

Na Barosa, Lurdes, 76 anos, foi dar um pequeno passeio para “mexer as pernas”. Queixa-se de ter caído e das dores no braço que traz ao peito e que terá de ser alvo de intervenção cirúrgica.

Viúva, sem filhos, “porque a natureza não quis”, vive sozinha, apoiando-se num ou outro vizinho, que a covid-19 agora afastou.

A sua alegria é o centro de dia que frequentava antes da pandemia. “Tenho saudades de estar lá, de pintar e do convívio”, desabafa, ao mesmo tempo que mostra o novo corte de cabelo feito pela vizinha.

“Há muita solidão e falta-lhes a rotina. Sentem-se perdidos e precisam de alguém com quem conversar”, constata à Lusa Bernardo Faustino, sublinhando que a pandemia ainda os distancia mais pelo medo de se contagiarem.

Sónia Moreira acrescenta que o trabalho assenta, sobretudo, em “combater a solidão dos idosos em isolamento e em perceber as suas necessidades básicas”.

“Ouvimo-los. Antes, eles davam a sua voltinha, sentavam-se no banco do jardim e conversavam. Os filhos e os netos visitavam-nos ao fim de semana. A pandemia tirou-lhes isso. Há o medo até de ficarem acamados por falta de mobilidade”, refere.

No programa “Sempre Consigo” são acompanhadas 28 famílias que englobam 33 pessoas, com idades entre os 64 e os 92 anos, residentes nas freguesias urbanas de Leiria, Pousos, Barreira e Cortes, Marrazes e Barosa e Parceiros e Azoia.

A vereadora da Ação Social, Ana Valentim, adianta à Lusa que o projeto se iniciou com uma colaboração com os Bombeiros Municipais, que, “além da vertente social, monitorizavam a tensão arterial e a diabetes”.

Com a pandemia, as visitas foram suspensas, mas o Município de Leiria “percebeu a necessidade de as retomar e de forma mais assídua”.

“É um apoio de proximidade, já que notamos que nas zonas urbanas as redes vizinhas são mais diluídas. Estas foram pessoas que nos foram sinalizadas pela rede de parceiros, mas poderemos apoiar outras mais. Com a pandemia temos de estar cada vez mais próximos das pessoas”, salienta Ana Valentim.

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