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Reportagem: O que o amor uniu, a guerra não separa – Casal russo-ucraniano de Leiria

“A cada duas horas falo com a minha filha”, referiu Anna, esclarecendo que por vezes apenas lhe faz a pergunta “Tudo bem?”. “Ela fala ‘tudo bem’ e pronto”, concluiu.

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Foto: Leiria apoia a Ucrânia / Facebook Município de Leiria


O amor uniu Jevjenio e Anna, casal russo-ucraniano que fez de Leiria a sua casa e de Portugal o seu país, onde a paz é um bem que contrasta com a guerra na Ucrânia, conflito que garantem não os separar.

“Não separa”, nem a guerra, nem o presidente russo, Vladimir Putin, afirma Jevjenio Kurochkina, 67 anos, nascido ainda a Federação Russa era a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas que incluía a Ucrânia, para onde foi trabalhar.

Polícia lá, serralheiro cá, Jevjenio lembra a propósito do amor que os juntou que casaram pela Igreja e, como eles, há “muitas e muitas famílias”.

Da união com Anna, de 62 anos, enfermeira de formação, empregada de limpeza de profissão, nasceram duas filhas, uma das quais vive e sobrevive na Ucrânia, nos arredores de Tcherkássi, com o marido e os três filhos, de 8, 12 e 16 anos.

“Ela dorme sempre na cave com os filhos, porque a noite é perigosa, por causa das bombas”, explicou Anna, num português de difícil perceção, não obstante contabilizar 20 anos a morar em Portugal.

É para a Ucrânia que a vida do casal, apesar da distância, se vira agora, mais do que nunca.

“A cada duas horas falo com a minha filha”, referiu Anna, esclarecendo que por vezes apenas lhe faz a pergunta “Tudo bem?”. “Ela fala ‘tudo bem’ e pronto”, concluiu.

Mas também do outro lado da linha, não raras vezes, Anna ouve “Agora não posso falar”, o que ocorre quando as sirenes ecoam e teimam em roubar uma tranquilidade passageira e ao mesmo tempo enganadora. Nesses momentos, a cidadã ucraniana responde: “Deus ajude”.

A filha relatou o sentimento de medo, que contagia os pais, e o desejo de que “esta guerra acabe rápido”, que lhes alimenta a esperança, depois do choque quando, em 24 de fevereiro, a Rússia iniciou a ofensiva militar na Ucrânia.

Desde então, nas noites não se dorme, com Jevjenio e Anna expectantes e ansiosos com o que o clarear do dia pode trazer.

“Quando abrimos os olhos, vamos ver o que Zelenski [presidente da Ucrânia] diz”. Segue-se o telefonema para a filha, que não equaciona deixar a Ucrânia.

“Ela diz ‘Mãe, o nosso Presidente está aqui. O nosso Presidente não fugiu, nós também não’”, adiantou, assinalando que a filha, de 40 anos, acredita que “vai ficar tudo bem” e apenas quer “recuperar a vida antes da guerra”.

Jevjenio Kurochkina está convicto de que Putin “não vai roubar o país [Ucrânia]”, uma “terra muito democrática”, com “um muito bom Presidente”, complementou Anna, que às preocupações soma orações para que a guerra acabe.

“Sempre a rezar e chorar e sempre triste”, sintetizou o marido sobre o estado do casal.

Jevjenio, ainda não refeito da surpresa que é esta guerra, destacou que são “países irmãos”: a Ucrânia, a Rússia e, ainda, a Bielorrússia. Por isso, “toda a gente pergunta, porquê a guerra”.

“Putin nunca vai acabar com o amor entre as famílias como a nossa, que há muitas na Ucrânia, na Rússia e na Bielorrússia”, salientou.

À pergunta se se sente mais russo ou mais ucraniano, responde de forma taxativa: “Mais ucraniano e português”.

Anna aproveitou para dizer “muito obrigada” ao país que os acolheu e que tem ajudado a Ucrânia, agradecimentos que estendeu à União Europeia e aos Estados Unidos da América.

“Os portugueses têm um grande coração”, resumiu, expressando um último desejo, que o amarelo da bandeira da sua Ucrânia, a cor do Sol, ilumine o país e o azul possa ser um “céu limpo, sem bombas”.

A Rússia lançou na madrugada de 24 de fevereiro uma ofensiva militar na Ucrânia que, segundo as autoridades de Kiev, já fez mais de 2.000 mortos entre a população civil.

Os ataques provocaram também a fuga de dois milhões de pessoas para os países vizinhos, de acordo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiado.

A invasão russa foi condenada pela generalidade da comunidade internacional que respondeu com o envio de armamento para a Ucrânia e o reforço de sanções económicas a Moscovo.

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